quarta-feira, 18 de junho de 2014

O Livro da Vida O ponto final. Um ponto preto pequenino quase imperceptível contrastando com a brancura imensa de uma página. Este pequeno ser, no entanto, tem o poder de terminar uma jornada épica, uma batalha entre mundos ou uma história de amor. Assim terminam todas as histórias. O fim definitivo, o final supremo, o desfecho de uma vida seja ela sofrida com acontecimentos dramáticos e horripilantes conduzido por tramas diabólicas e reviravoltas interessantes ou caminhadas felizes simples e harmoniosas como um passeio em uma tarde de verão, apreciando o por do sol ao lado da pessoa amada, mas sempre é ele o ponto final que reduz nossa história humana a sua essência efêmera e superficial, a morte. Por este motivo muitos acreditam que estão isentos de responder por seus atos. Que caminham livres e absolutos em suas jornadas. Afinal o fim é o final. Nada além do nada. Do pó viemos ao pó voltaremos e nada mais. O que temos aqui é o que importa e o importante é ter, pois todos seremos reduzidos a ele, ao ponto final e dele ninguém escapa. Pelo menos assim deveria ser, assim gostaríamos que fosse, mas somos estes entes estranhos e interessantes feitos de carne ossos vísceras e sangue, mas preenchidos por esta inquietante força vivente que chamamos de alma. Essa estranha sensação com que faz que apreciemos a arte, uma flor, a melodia de uma música o amor. Essa inquietante certeza de não saber. É nela, na alma, que realmente esta nossa essência, nosso verdadeiro eu e é ela que sobrevive ao ponto final, a morte, nos tornando eternos. Ela é nosso livro sagrado, em nossa alma gravamos nossa caminhada por este plano terrestre. Ela é nosso livro onde escrevemos nossa história e esse livro fica registrado nos arquivos universais e isso não depende de religião porque esse livro é nosso, é particular e próprio somente nós temos acesso a ele e nele escrevemos o que queremos. Só que o que ali escrevemos ali fica, não há como rasurar mudar ou esconder nossos atos e ações deste livro sagrado e pessoal, pois ali fica guardado nosso eu verdadeiro sem espaço para mentiras ou negações. Diante dele estamos nus e sem pudores somos apenas nós e nós mesmos. Nossos atos e ações todos eles para todo o sempre gravados explicitamente expostos. Diante de nosso livro da vida, nosso livro sagrado, estaremos sós e seremos advogados, promotores e juízes impiedosos de nossa história pessoal. Aqui se faz aqui se paga! Nosso livro não nos permitira mentir ou procurar desculpas para nossos atos. Quando estivermos diante dele somente as leis imutáveis da vida prevaleceram. O certo e o errado e o resultado deles o aprendizado. Apesar de ser um livro pessoal e sagrado muitas vezes permitimos que coautores no auxiliem em nossa jornada. Nossa história afeta outras histórias que nos cercam assim como somos afetados por elas. Nosso livro completa outros livros e vice versa. Em nosso livro ficam impressões de histórias de outras pessoas sejam elas boas ou más e nos livros delas nossas histórias. Criando assim uma imensa e maravilhosa biblioteca de impressões, mágoas, amores, alegrias, tristezas, felicidade de vidas conectadas todas umas as outras. Num eterno ciclo de aprendizado e evolução. O banco de dados universal da alma humana. Mas a finalidade de um livro é ser lido. Não existem livros ruins existem apenas livros e histórias a serem contadas. O que precisamos fazer é encontrar os leitores certos para nossas histórias, nosso público alvo. E essa busca deve ser incansável, não permitindo que o medo nos trave novas descobertas e novas histórias. Devemos perder definitivamente o medo de escrever nossa história pessoal, afinal existem milhares de pessoas que esperam, que anseiam desesperados por nossa história para poder completar as suas. Mas e o ponto final? Nem todo ponto final significa o fim da história, pode apenas significar o início de um novo capítulo.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Bird Of Prey Ave de rapina Cada mentira que você já foi vendido A maior história já contada. Uma ave de rapina circulando, Acima de uma igreja em um domingo. Eu me enrolar em você, Um pouco de alguma coisa que eu possa agarrar. Oh, lá está você, meu amor, Aí está você meu amor. Chover pelas minhas mãos, Gritar como crianças, Meu coração é um sino tocando igreja. Você é um arrepio, O ouro ea prata, Meu coração é um sino tocando igreja. Cada mentira que você já foi vendido A maior história já contada. Uma ave de rapina circulando, Acima de uma igreja em um domingo. Chover pelas minhas mãos, Gritar como crianças, Meu coração é um sino tocando igreja. Você é um arrepio, O ouro ea prata, Meu coração é um sino tocando igreja. Para os pássaros, Para os pássaros, Para os pássaros. Para os pássaros, Para os pássaros, Para os pássaros. Você é um arrepio, O ouro e a prata, Você é um arrepio, O ouro e a prata.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

quarta-feira, 12 de março de 2014

Fé de Mais...

Como fazia toda sexta feira ele caminha em direção ao terminal de ônibus metropolitano da grande Curitiba. Eram quase dezessete horas, horário em que o movimento começa a aumentar com as pessoas apressadas para chegar em casa. Seguindo a regra esta vestindo camisa branca, gravata azul marinho e terno cinza, muito gel no cabelo curto penteado meticulosamente do lado direito para o lado esquerdo de sua cabeça, com cada foi em seu devido lugar deixando a mostra grandes orelhas. Fisionomia muito séria passando muita tranqüilidade, respeito e acima de tudo uma confiança em si anormal, beirando mesmo a arrogância. Não tinha mais do que vinte e cinco anos. Com sua mão esquerda vem arrastando uma enorme mala preta, presa a rodinhas que fazem um ruído enorme anunciando assim sua chegada e em baixo do braço direito a Bíblia Sagrada. Ritualisticamente posicionasse ao centro do terminal. De dentro da mala retira uma caixa de som amplificada ligada a uma bateria de carro. Conecta a ela um microfone e com o dedo indicador da três batidas na ponta e diz: - Testando, um, dois, três... Alguns curiosos já vão parando e observando enquanto ele vai dando os últimos ajuste no som, ajeitando uma urna, como as de votação só que em plástico transparente, que serve para receber os donativos e montando uma pequena plataforma que retirou também da mala que utiliza para poder ficar mais alto do que os ouvintes. Agora já em pé na plataforma com o microfone em uma das mãos e a Bíblia aberta na outra fala com um tom de voz elevado e muito firme inspirando muita confiança: - Aleluia irmãos. Alguns transeuntes menos atentos se assustam com o barulho assim como outros que estavam mais afastados vão se aproximando para ver o que acontecia. Em poucos minutos ele esta completamente rodeado, como uma cadela no cio. Como de praxe segue aos gritos declamando versículos, passagens, parábolas, Mateus, Lucas, Pedro, etc, etc, etc. E sempre que percebe algum tipo de desinteresse ou distração das pessoas ao seu redor não hesita em gritar com plenos pulmões: - Aleluia irmãos. O que era prontamente respondido pelos ouvintes em uníssono. - Aleluia. Alguns metros dali parada diante de um mural, onde as agências de emprego colam seus cartazes oferecendo vagas, esta dona Matilde das Dores absorta olhando para aquilo como quem olha para uma obra de arte, pois como é analfabeta somente as cores lhe chamam a atenção. Mas como todo bom filho desta nossa ingrata terra, não passa aperto e logo arruma uma mocinha para ler os anúncios para ela. Seguindo as orientações da robusta senhora a menina com certa dificuldade começa: - “Auchiliar” de cozinha. Salário mínimo, vale transporte, 1° grau “compreto”. E dona Matilde resignada: - Esse não dá minha filha, lê aquele fazendo o “favô”. - “Auchiliar” de serviços gerais. Masculino, maior com experiência de 2 anos. Dona Matilde mostrando um sorriso desdentado diz: - “Vixe” filha, só se eu virá “homi”. E assim a menina com seus dezessete anos, corpo franzino contrastando com sua saliente barriga de gestante, segue lendo os anúncios. Enquanto a menina lia o último anúncio abatesse em dona Matilde um desanimo tremendo quase um desespero, pois sabia que voltaria mais um dia para casa sem emprego, dinheiro, dignidade e praticamente sem esperança. Com os olhos marejados agradece a menina e caminha em direção ao centro do terminal carregando consigo e fazendo justiça ao seu nome, todas as dores de uma vida humilde ou melhor humilhante. Como uma águia a avistar sua presa ele nota aquela senhora desiludia caminhando em sua direção e raciocinando extremamente rápido percebe a oportunidade. Antes mesmo que dona Matilde pudesse compreender o que acontecia estava cercada pelos braços do rapaz que falava complacente mas muito decidido para que todos pudessem ouvir: - Aleluia, irmãos. Temos aqui uma irmã desiludida, sem esperança, um prato cheio para o demônio que fica nos espreitando só esperando nos abatermos e assim nos dominar. Não desanime, fé irmã, pois nosso senhor Jesus Cristo filho de Deus todo poderoso, onipotente, onisciente, senhor do céu e da terra, AMA VOCÊ. Aleluia irmãos. A senhora vendo toda aquela gente ao seu redor olhando para ela com uma mistura de curiosidade e pena, aquele rapaz gritando em seu ouvido mais o fato de estar cansada por procurar emprego o dia inteiro além das dificuldades de uma vida dura, fica extremamente nervosa e desata em um choro compulsivo que é prontamente amparado pelo rapaz que a aninha em seu braço falando carinhosamente: - Aleluia irmãos. Não tenha vergonha irmã o choro faz bem a alma. Foi Deus nosso senhor que nos presenteou com as lágrimas para que possamos aliviar nossas tristezas e frustrações. Isso mesmo chore. Chore muito. Desabafe ponha tudo para fora. Aleluia irmãos. Algumas mulheres ao redor vendo aquela senhora chorando copiosamente se compadecem e começam a chorar também e em um gesto quase que impulsivo a abraçam e em meio aos soluços dizem: - Aleluia, aleluia. Mal conseguindo controlar a satisfação de ver seu plano dando certo, o rapaz incita ainda mais as pessoas com palavras fortes, frases feitas e muitos, mas muitos, gritos de: - Aleluia irmãos, aleluia. Agora muito mais calma depois do desabafo dona Matilde sente-se completamente renovada como que de cima de seus ombros tivessem retirado o mundo. Percebeu que havia pessoas que se importavam com o que ela sentia. Pessoas que ela nunca havia visto, completos estranhos que entendiam sua dor e desespero. Pessoas assim como ela que conheciam o sofrimento, o trabalho duro ou pior a falta do trabalho, a humilhação e as dificuldades da vida. Essa surpreendente descoberta encheu seu coração de esperança. Sentia que poderia vencer qualquer desafio e nunca mais ficaria desamparada, pois sempre existiriam pessoas boas prontas a lhe estender a mão. O rapaz percebendo a senhora com ânimo renovado grita entusiasticamente: - Aleluia. Diante de nós uma prova da bondade de Deus, pai, nosso senhor. Com sua infinita sabedoria e misericórdia renovou o ânimo dessa irmã, afastando o demônio que a espreitava como cobra peçonhenta. Dona Matilde quase que em estado de êxtase segurando a mão do rapaz grita em meio a multidão: - Aleluia. Obrigada meu Deus. Aleluia. Antes de ir embora agora carregando consigo um santinho que ganhou do rapaz para que usasse toda vez que se sentisse desamparada, dona Matilde tira da bolsa seus últimos dez reais e sem hesitar nem mesmo por um segundo, coloca dentro da pequena urna dos donativos que estava quase cheia. Afinal de contas o dinheiro não era nada comparado ao bem estar e paz de espírito que ela experimentava. Como sempre cerca de duas horas depois de chegar ele começa a desmontar seus equipamentos de trabalho. Primeiro confere os donativos, quase sessenta reais. Depois guarda a caixa de som, o microfone, a urna agora vazia e a plataforma dentro da mala. As pessoas como sempre acontecia já haviam seguido seus caminhos e não mais se importavam com o rapaz. Quando se preparava para ir embora sente que o bolso de seu terno esta tremendo. Com toda calma do mundo retira de dentro dele um pequeno aparelho celular menor do que a palma de sua mão e tão fino quanto a mais avançada tecnologia permite. - Alô. - Marcelo? - Sim, quem é? - É o Edir. E aí rapaz tudo em cima? - Oh, Edir tudo na maior, ou como diria meu tio, do jeito que o diabo gosta. - Que bom. Então tudo certo pra hoje à noite? - Claro. Você acha que eu perderia a inauguração da “Boite Tropicaliente” onde estão as garotas mais belas da capital? - Que bom. É que eu achei que você estava sem dinheiro? - O dinheiro nunca falta para quem tem fé, meu amigo. Não são apenas montanhas que a fé movimenta. Movimenta também a máquina que não pode parar. - Há! Então o novo “bico” que você falou realmente esta dando dinheiro? - Como nunca meu amigo, como nunca! Mas é isso aí. Nos encontramos lá. Tchau. - Ok. Tchau. Com a mesma confiança que chegou segue arrastando com a mão esquerda a grande mala preta e em baixo do braço direito a Bíblia Sagrada.

sexta-feira, 7 de março de 2014

quarta-feira, 5 de março de 2014

Fórmula para Imortalidade

“100% das pessoas morrem”. Isto é um fato. È a incontestável condição humana. Nascemos, crescemos e morremos. Mas outra condição humana é a inconformidade em aceitar os fatos como eles são. Por isto buscamos insaciavelmente a longevidade, a fonte da juventude, a vida eterna em vida. Os motivos para esta busca incessante são os mais variados possíveis, entre eles a vaidade e medo da morte. O medo da morte gera explicações para o que vai acontecer depois que deixarmos o corpo físico nas mais diversas teorias e vertentes religiosas e filosóficas. A maioria das destas vertestes dize que após a morte iremos receber as recompensas ou castigos de acordo com as nossas atitudes em vida, com pequenas variações entre as recompensas e os castigos. Entre algumas das recompensas dizem que iremos para o paraíso e ficaremos sem fazer nada numa eterna monotonia ou que lá teremos mil virgens para nosso deleite. Entre os castigos, que iremos queimar no fogo do inferno ou no mármore do capeta sempre eternamente sem apelações ou redenção. Já a vaidade gera tratamentos de beleza, cirurgias plásticas, aplicação de botox, regimes mirabolantes para obter o corpo perfeito e com ele uma vida mais longa, já que para a morte não tem jeito mesmo. Mas a preocupação é sempre a mesma, que iremos morrer. Quando na verdade deveríamos nos preocupar em como estamos vivendo. Como nossa preocupação é a morte não damos valor à vida, por isso ela hoje em dia vale tão pouco. Buscamos a fórmula para imortalidade para viver em um mundo cão. E por tanto buscar acabamos conseguindo encontrá-la. Isso mesmo, a fórmula para nos tornarmos imortais esta bem debaixo de nossos narizes e a praticamos diariamente mesmo sem percebê-la. É simples querem ver? Toda vez que você passar por um mendigo deitado na rua vire o rosto e siga sua vida. Toda vez que você ver um menor abandona pedindo esmola em um semáforo feche o vidro escuro de seu carro e siga embora. Toda vez que você ver uma menina se prostituindo nas margens de uma rodovia, em quanto você vai para praia, siga em frente e não denuncie. Toda vez que você puder tirar proveito de alguma situação não hesite, mesmo que isto prejudique aos outros, lembre-se o mundo é dos espertos. Toda vez que você ver alguém ser assediado sexualmente ou moralmente em seu trabalho não diga nada. Toda vez que você souber que existe um traficante em sua rua não denuncie. Toda vez que você ver alguém ser descriminado por sua cor, raça, religião ou opção sexual deixe pra lá, não é com você. Toda vez que você ver no jornal que os políticos desviaram verbas da saúde, educação, saneamento básico, para proveito próprio desligue a televisão e vá dormir. Toda vez que você ouvir um marido bêbado batendo na mulher e filhos, feche a porta de casa e não se meta, pois em briga de marido e mulher não se mete a colher. Toda vez que você se omite e deixa as coisas acontecerem sem fazer nada você morre um pouco até atingir ao estado de morto vivo e em então a tão sonhada imortalidade. Pois como todos sabemos o que já está morto, não pode morrer.